O transporte aéreo manteve, no ano passado, um “forte desempenho” no que diz respeito à segurança, avança a IATA – Associação Internacional de Transporte Aéreo, que diz, no entanto, que houve “um passo atrás em relação ao desempenho excepcional em 2023”.
Segundo a associação, em 2024, a taxa de acidentes ficou nos 1,13 por milhão de voos, o que quer dizer que houve um acidente por 880.000 voos realizados, num desempenho que foi “melhor do que a média a cinco anos”, que é de 1,25 acidentes por milhão de voos.
No entanto, os dados da IATA também mostram que, em relação a 2023, a taxa de acidentes do ano passado foi superior, já que há dois anos se tinham registado 1,09 acidentes por milhão de voos.
“Houve sete acidentes fatais em 2024, entre 40,6 milhões de voos. Isso é superior ao único acidente fatal registrado em 2023 e à média de cinco acidentes fatais em cinco anos”, lê-se num comunicado divulgado pela associação esta quarta-feira, 26 de fevereiro.
Entre as companhia aéreas que estão no IOSA, ou seja, o registro de Auditoria de Segurança Operacional da IATA, a taxa de acidentes foi de 0,92 por milhão de voos, valor que foi “significativamente menor do que os 1,70 registrados por transportadoras não pertencentes à IATA”.
No ano passado, houve ainda 244 mortes a bordo, número que é significativamente superior às 72 fatalidades a bordo relatadas em 2023, assim como à média dos últimos cinco anos, que está nas 144 mortes a bordo.
“Mesmo com os recentes acidentes de aviação de alto perfil, é importante lembrar que acidentes são extremamente raros. Houve 40,6 milhões de voos em 2024 e sete acidentes fatais. Além disso, a história de longo prazo da segurança da aviação é de melhoria contínua”, acrescenta Willie Walsh, diretor-geral da IATA.
A IATA sublinha que, no ano passado, houve também mais acidentes no solo, como colisões de cauda ou saídas de pista, o que, segundo a associação, realça “a importância das medidas de segurança na descolagem e aterragem”.
Maior risco em zonas de conflito
A IATA alerta ainda para os riscos “crescentes” para a aviação em zonas de conflito e lembra os dois aviões que, no ano passado, se despenharam por interferência dos conflitos armados, como o avião que caiu no Cazaquistão e que provocou 38 mortes, bem como o que caiu no Sudão e que fez cinco vítimas mortais.
Apesar destes acidentes não serem considerados no relatório de segurança da IATA, a associação admite que eles são, “juntamente com os crescentes incidentes de interferência do Sistema Global de Navegação por Satélite (GNSS), uma das principais preocupações para a segurança da aviação, exigindo coordenação global urgente”.
“Nenhuma aeronave civil deve ser alvo — deliberado ou acidental — de operações militares”, alerta Willie Walsh, defendendo que os governos “devem intensificar e melhorar a partilha de inteligência e estabelecer protocolos globais mais claros para evitar tais tragédias e proteger a aviação civil”.
América do Norte foi a região com maior número de acidentes aéreos
O relatório de segurança da IATA lista ainda os acidentes por regiões, com destaque para a América do Norte, que registou, no ano passado, um total de 12 acidentes aéreos, naquele que foi o maior número entre todas as regiões do mundo.
Contudo, os dados da IATA indicam que a taxa de acidentes na América do Norte desceu no ano passado, já que passou de 1,53 acidentes por milhão de voos em 2023, para 1,20 acidentes por milhão de voos, ficando ainda acima da média a cinco anos, que está nos 1,26 acidentes por milhão de voos, enquanto o risco de fatalidade continua nos zero desde 2020.
“Os tipos de acidentes mais comuns em 2024 foram colisões com a cauda, seguidos por danos na pista e saída de pista. Embora nenhum acidente tenha estado relacionado com detritos de operações espaciais, o número crescente de lançamentos de foguetes apresenta desafios para o gerenciamento do tráfego aéreo”, refere a IATA, em relação à América do Norte.
Já a Ásia-Pacífico registou, no ano passado, sete acidentes, o que levou a que a taxa de acidentes aumentasse de 0,92 por milhão de voos em 2023 para 1,04 em 2024, ainda assim, abaixo da média regional dos últimos cinco anos, que é de 1,10 acidentes por milhão de voos.
“O risco de fatalidade permaneceu inalterado em 0,15 desde 2023. Não houve uma classificação dominante para acidentes na região, que incluíam colisões com a cauda, danos na pista e turbulência, entre outros”, refere a IATA.
Em África, no ano passado foram contabilizados 10 acidentes, o que levou a que a taxa regional de acidentes tenha aumentado de 8,36 acidentes por milhão de voos em 2023 para 10,59 em 2024, superando a média de cinco anos de 8,46 acidentes por milhão de voos.
“África (AFI) registrou a maior taxa de acidentes, embora o risco de fatalidade tenha permanecido em zero pelo segundo ano consecutivo. Os tipos de acidentes mais comuns em 2024 foram saídas de pista, seguidas por problemas relacionados com o trem de aterragem”, explica a IATA.
Já no Médio Oriente e Norte de África, registaram-se, no ano passado, apenas dois acidentes, o que permitiu que a taxa de acidentes descesse de 1,12 acidentes por milhão de voos em 2023 para 1,08 em 2024, num desempenho que foi ainda “melhor do que a média de cinco anos da região”, que está nos 1,09 acidentes por milhão de voos.
Entre a Comunidade de Estados Independentes, não houve acidentes aéreos registados no ano passado, o que levou a que a taxa regional de acidentes melhorasse, passando de 1,05 acidentes por milhão de voos em 2023 para zero em 2024, numa melhoria que foi também obtida em relação à média de cinco anos da região, que está nos 2,49.
Neste caso, a IATA diz que “os riscos de segurança associados a conflitos regionais continuam a ser as principais preocupações para a segurança da aviação” nesta zona.
Na Europa, houve ainda nove acidentes em 2024, pelo que a taxa regional de acidentes aumentou “ligeiramente”, passando de 0,95 acidentes por milhão de voos em 2023 para 1,02 acidentes em 2024.
“Essa taxa está ao mesmo nível da taxa média de acidentes a cinco anos da região, que é de 1,02. A taxa de risco de fatalidade aumentou de zero em 2023 para 0,03 em 2024. A maior proporção de acidentes foi relacionada a colisões com a cauda, seguidas por saídas na pista”, refere a IATA, relativamente à Europa.
Já no Norte da Ásia, houve “um único acidente” no ano passado, o que ditou um aumento ligeiro da taxa de acidentes, que passou de zero em 2023 para 0,13 no ano passado, ficando, ainda assim, abaixo dos 0,16 acidentes por milhão de voos registados nos últimos cinco anos.
“Houve apenas um acidente envolvendo operadores do norte da Ásia e foi relacionado a uma colisão com a cauda”, refere a IATA, em relação aos acidentes registados no Norte da Ásia, em 2024.
Já na América Latina e Caraíbas, a IATA diz ainda que, no ano passado, se registaram cinco acidentes, o que levou a que a taxa de acidentes tenha aumentado de 0,73 acidentes por milhão de voos em 2023 para 1,77 acidentes em 2024.
“Isso foi melhor do que a média a cinco anos de 2,00. O risco de fatalidade aumentou de 0,00 em 2023 para 0,35 em 2024. A maior proporção de acidentes esteve relacionada com colisões com a cauda”, justifica ainda a IATA.
A IATA apela ainda a que os relatórios sobre os acidentes aéreos sejam “oportunos, abrangentes e públicos” e diz que, a sua análise às investigações de acidentes entre 2018 e 2023, revela que “apenas 57% foram concluídas e publicadas conforme obrigatório pela Convenção de Chicago”.
“As taxas de conclusão variam significativamente entre as regiões, com o Norte da Ásia liderando com 75%, seguido pela América do Norte (70%) e Europa (66%), CEI (65%), Oriente Médio e Norte da África (60%), América Latina e Caribe (57%), Ásia-Pacífico (53%) e África (20%)”, indica a IATA.
Willie Walsh também apela a que a investigação de acidentes aéreos seja transparente, uma vez que se trata de uma “ferramenta vital para melhorar a segurança da aviação global”.
“Para serem eficazes, os relatórios de investigações de acidentes devem ser completos, acessíveis e oportunos. O Anexo 13 da Convenção de Chicago deixa claro que esta é uma obrigação do estado. Enterrar relatórios de acidentes por considerações políticas é completamente inaceitável”, afirma o responsável.
Por último, a IATA alerta ainda para o aumento das interferências dos sistemas de navegação por satélite (GNSS), que podem enganar os sistemas de navegação de aeronaves.
“Embora existam vários sistemas de backup em vigor para dar suporte à segurança da aviação, mesmo quando esses sistemas são afetados, esses incidentes ainda representam riscos deliberados e inaceitáveis para a aviação civil. A interferência GNSS é mais prevalente na Turquia, Iraque e Egito”, explica a IATA.
Problemas como interrupções de sinal, interferência e falsificação registaram um aumento no ano passado, com a IATA a especificar que as taxas de interferência cresceram 175% no ano passado, enquanto os incidentes de falsificação de GPS aumentaram 500%.
“O aumento acentuado em eventos de interferência GNSS é profundamente preocupante. A navegação confiável é fundamental para operações de voo seguras e eficientes”, refere ainda Willie Walsh.