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Opinião

O último ‘hub’ do deserto

A afirmação da Royal Air Maroc como a 4ª maior companhia africana e a sua ascenção global através da adesão à aliança oneworld, está a transformar Casablanca num hub aéreo de referência, a escassos 500 quilómetros de Lisboa, mais perto do que Madrid.

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O último ‘hub’ do deserto

A afirmação da Royal Air Maroc como a 4ª maior companhia africana e a sua ascenção global através da adesão à aliança oneworld, está a transformar Casablanca num hub aéreo de referência, a escassos 500 quilómetros de Lisboa, mais perto do que Madrid.

Pedro Castro
Sobre o autor
Pedro Castro

Mesmo aqui ao lado, mas sempre encoberto por aquela névoa do sebastianismo que nos separa há séculos, Marrocos surge cada vez mais como um ponto de convergência da aviação mundial. A afirmação da Royal Air Maroc como a 4.ª maior companhia africana e a sua ascensão global através da adesão à aliança oneworld, está a transformar Casablanca num hub aéreo de referência, a escassos 500 quilómetros de Lisboa, mais perto do que Madrid.

A decisão estratégica da Ryanair no sentido de aumentar a sua operação em Marrocos em mais de 20% este Verão – inclusivamente recorrendo a aviões anteriormente baseados na Madeira e nos Açores – juntamente com a decisão governamental de abrir as rotas domésticas transversais à concorrência é o reflexo de um novo ambiente jurídico-comercial favorável ao setor aeronáutico que se pretende robusto e diverso para acolher o Copa do Mundo de 2030. Já no que toca à companhia de bandeira, a Royal Air Maroc, o foco é cada vez mais na operação à partida de Casablanca que não é nem capital, nem ponto turístico relevante do país. Com uma posição geográfica privilegiada e uma política agressiva de preços, aliada a uma generosa franquia de bagagem de porão incluída em todas as suas tarifas intercontinentais, a Royal Air Maroc já conquistou uma fatia significativa do mercado de Portugal para Bissau, Cabo Verde e Angola com apenas uma breve escala e troca de avião no aeroporto Mohammed V. Os planos ambiciosos da Royal Air Maroc incluem a intenção de quadruplicar a sua frota até 2030 com um concurso público para aquisição de novas aeronaves lançado no início de abril. Com uma frota de 200 aviões prevista para a próxima década, a companhia pretende colocar Marrocos no xadrez mundial do continente com a maior desproporção entre população e passageiros aéreos, mas para isso acontecer os acordos aéreos bilaterais com vários países africanos terão de ser flexibilizados. Os políticos marroquinos consideram estratégico utilizar a Royal Air Maroc para aproveitar a localização geográfica única (?) do país na bissetriz de vários continentes, com um mercado turístico fervilhante, num país seguro e com ótimo tempo o ano todo. Para além dos tradicionais voos para a Europa e América do Norte, este aumento de frota permitirá à companhia iniciar voos para a Ásia e para a América do Sul. Tudo isto soa demasiado familiar para nós, portugueses, porque, à falta de imaginação, vários são os países e governantes que pretendem transformar as suas infraestruturas em placas giratórias mundiais da economia de transporte. As contas ao valor acrescentado desse investimento e à probabilidade de obter resultados líquidos positivos far-se-ão muito depois e já nenhum destes decisores estará cá para prestar contas ou assumir responsabilidades. Apesar de tudo, a política pública de Marrocos vai distribuindo as “fichas” desta sua estratégia: já tem uma linha de comboio de alta velocidade desde 2018, aposta nas ligações diretas sem passar por hub entre cidades secundárias dentro do país e entre estas e os mercados emissores mais importantes e planeia construir uma ligação ferroviária com Espanha (e com a Europa) através de um túnel marítimo…antes de 2030. É em toda esta intermodalidade e variedade de cenários alternativos com vários agentes económicos dedicados a diferentes áreas do mesmo negócio que certamente residirá a garantia de sucesso…pelo menos, parcial: algo, no meio de tudo isto, funcionará.

E se no final da história – depois de termos salvo a TAP, depois de termos construído um mega aeroporto transcontinental e os seus caros acessos – nos disserem que, afinal, Lisboa não é a última Coca-Cola do deserto?! Nem falo de Madrid…é que se há alguém que conhece bem o deserto, são os marroquinos.

Sobre o autorPedro Castro

Pedro Castro

Diretor da SkyExpert Consulting e docente em Gestão Turística no ISCE
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